• Cartas à Manu

    Cartas à Manu: lembre sempre do The Mountain Messenger

    Querida Manu, Nunca podemos deixar de fazer o que amamos. Digo isso porque no decorrer de nossas vidas vamos inventando concessões por uma série de motivos. Muitas dessas para seguir um dos tantos padrões da sociedade. Mas também pela nossa própria covardia de traçar um caminho diferente. Nos habituamos a achar que tudo é chegada, não percurso, e estacionamos naquele lugar que não queremos perder. Moramos nele por um tempo e mesmo depois de termos a certeza de que não nos serve mais, continuamos no mesmo lugar para não perder o que achamos que conquistamos. Perder e ganhar. São dois conceitos vazios quando temos a perspectiva unicamente material. Tenho acompanhado…

  • Cartas à Manu

    Faltou você em Açores

    Querida Manu. Permita nessa missiva contar minhas mais recentes aventuras junto com sua mãe e Rafinha. Logicamente, com você mais presente do que nunca. Estive em um lugar em que respiramos cultura, alegria, nostalgia e memórias. Esses sentimentos têm o dom de nos manter vivos. Percebo isso desde o seu embarque há mais de um ano, naquele seu aceno das escadarias do avião que a levou para Irlanda; até hoje assisto a cena em sonhos ou mesmo quando acordo surpreso ao meio da noite. Tão pouco, mas saudoso, tempo de distância. Não nos cansamos de pensar em ti, falar de ti, contar suas histórias, novas e atuais, como os antigos…

  • Contos 2006

    Moça de vermelho sabe morrer

    Manoel Fernandes Neto É nova a sensação de acordar feito suspeito. Como cão vadio e sarnento, apesar de saber que possuo conta no banco, cartão. Créditos sob códigos. Gerente de plantão. Secretária gostosa e mentirosa me oferecendo cafezinho: “O senhor já tomou? Está fresquinho”. O néon da rua já apagou, mas ainda o tenho na íris. Tem colchão de palha, armário vazio, recepcionista desdentado e sonolento: descarado de beco. Tem privada com cheiro de urina e desejo, lençol com marcas de amores infiéis e gozos remunerados. Tem o detalhe. Barulho no corredor. Conversa entre homem e mulher. Só eu percebo o fino golpe de navalha no pescoço dela, que usa…

  • Contos 2006

    O dia da morte

    Manoel Fernandes Neto Nunca imaginei que lápides de bronze em campas vitrificadas fossem tão caras. Sou obrigado a me contentar com a caiação branca, daquelas que grudam na roupa em Finados. Enfim, regateio a melhor maneira de deixar minha derradeira mensagem, minha morada definitiva. Amanhã, estarei morto. Devo comprar fiado. Só assim deixo de pagar conta em dia, única preocupação nos últimos anos, em que acordei às seis, li meu matutino até às nove e na hora em que o banco abria, lá estava eu. Primeiríssimo da Silva. De alguma maneira gostava daquilo. Dizer o primeiro bom-dia ao caixa, contar as principais novidades da cidade. Vez por outra, ser convidado…

  • Cartas à Manu

    Cartas à Manu: fragmentos de uma distância

    Querida Manu. Pensamentos fragmentados. Rotinas incessantes. Um pouco de tudo, Manu. Fundo e raso. O céu e o charco. Erros e acertos e eu sempre a adiar te escrever. A exigência em demasia, inimiga da produção. Um caleidoscópio. Muitos recomeços, nada nunca bom. Acabei unindo tudo em uma única carta, a oitava, acho. Espero que te encontre bem, com Brunão e sua turminha de Dublin. Aqui, eu, Rafa e Cris cada vez mais unidos, com mais amor. Os meses passam, a luas se multiplicam, mudamos e renovamos. Lá vai um pouco de algo de cada coisa: Rotina A ética hacker foi pouco a pouco abandonada, ou melhor, colocada de lado.…

  • Cartas à Manu

    Cartas à Manu: Um dia para celebrar a Unidade

    Querida Manu Seu aniversário sempre foi especial. Sempre teve contagem regressiva, anunciação. E você merece todas as homenagens: que mulher tremenda que você se tornou! Já contei grande parte de sua história no Calhamaço de Viagem. Mas sempre tem algo a mais pra falar, não é mesmo? Hoje, acima de tudo, quero agradecer a você por ter me tornado um cara melhor a partir do momento que caminhei pelos corredores do hospital Santa Catarina, naquela manhã de abril; em que fiz aquele poeminha para você; em que me descobri imortal. Gratidão: não tem palavra mais verdadeira do que essa. Ser pai, de você e da sua irmã Rafa, renovou como…

  • Cartas à Manu

    Precisamos conversar sobre exílios

    Manu amada, A realidade se impõe. Explico: quando me propus a escrever para você, era baseado na franqueza da nossa relação e tudo que eu poderia dizer a ti neste período de distância. Minhas visões: da vida, do Planeta, do nosso país. Algo como um seriado do piloto Calhamaço. Para ser lido agora e no futuro, embalados na saudade e o que vivemos nesses tempos; felizes, sim, esperançosos, mas não falseados pela história, essa diva. Por isso precisamos conversar sobre exílios. Exílios germinam dentro da gente, a esperar o momento de se manifestar. Pode ser a partida derradeira e necessária de Jeans, Andersons, Márcias, Déboras, que deixam o país por…

  • Cartas à Manu

    Cartas à Manu: Definitivo mesmo são suas experiências de amor e tolerância.

    Querida Manu, Imagina minha felicidade por você ter descoberto um centro espírita em Dublin – o Spiritist Society of Ireland – e em um frio domingo pela manhã ter assistido junto com o Brunão uma doutrina pública. Lembro bem de uma época nossa, que contei de forma completa no Calhamaço de Viagem, quando aceitei como filosofia de vida a imortalidade do espírito, a reencarnação e tantos outros pilares da doutrina codificada por Allan Kardec. Naqueles dias, você com 10 anos, pegávamos o ônibus duas vezes por semana para assistirmos palestras no centro espírita que nos identificamos aqui em Blumenau. Noites de muita felicidade. Sempre gostei de palestras nos domingos de…

  • Cartas à Manu

    Fevereiro, 2019, 28 dias

    Amada Manu 21 horas do dia 27 de fevereiro. A pensar nos últimos dias do mês que não escrevi para você. E escrever para você me faz uma pessoa melhor. De certa forma, ao conceber essas cartas falo também para sua irmã e para o futuro. Cartas assim com destinatários tão sublimes devem sim se repetir com mais frequência, algo que não fui capaz de fazer nesse mês de fevereiro, tão curto, tão fluido. O fato é que não controlamos o que sentimos e pensamos em cada dia. Alguns são nobres, e a consciência se desprende com facilidade. Outros, pesados, que nos deixam pregados no chão, raízes a se aprofundar…

  • Cartas à Manu

    Cartas à Manu: Sobre paredes e metáforas

    Querida Manu, Todos nós estamos muito felizes com suas novas experiências em terras distantes. Seu avanço nos estudos, suas vivências profissionais, sua vida com novos amigos e amigas com quem instalou, recentemente, seu novo canto: uma casa encantadora em uma rua histórica de Dublin. Lá, estão sua estação de trabalho e o espaço para filmagens de seus vídeos. Aqui, caminhamos mantendo o otimismo inabalável; o pensamento que cultiva a abundância de uma vida plena: materialmente, espiritualmente, socialmente. A viver cada vez com mais desprendimento, menos julgamentos a si mesmo e ao outro. Você sabe, dessa forma nossos passos são firmes na jornada. Atrasei um pouco minha agenda de duas cartas…