Cartas à Manu: Definitivo mesmo são suas experiências de amor e tolerância.

Querida Manu,

Imagina minha felicidade por você ter descoberto um centro espírita em Dublin – o Spiritist Society of Ireland – e em um frio domingo pela manhã ter assistido junto com o Brunão uma doutrina pública. Lembro bem de uma época nossa, que contei de forma completa no Calhamaço de Viagem, quando aceitei como filosofia de vida a imortalidade do espírito, a reencarnação e tantos outros pilares da doutrina codificada por Allan Kardec. Naqueles dias, você com 10 anos, pegávamos o ônibus duas vezes por semana para assistirmos palestras no centro espírita que nos identificamos aqui em Blumenau. Noites de muita felicidade.

Sempre gostei de palestras nos domingos de manhã. Os domingos são dias perfeitos para levantarmos cedo; nos dedicarmos a agendas transcendentes, mentais, energéticas. E a Doutrina Espírita é tudo isso. Explica, esclarece, consola.

Você sabe melhor que ninguém: mesmo com esse meu amor por esse arcabouço de conhecimento, também criticado por várias pessoas e escolas, nunca impus a você a fé cega. Sempre abominei os fanatismos que também temos no Espiritismo. Fanatismos que ainda transformam equívocos em “pecados”, alimentam um farisaísmo de “casta privilegiada”; e que insistem na adoção de um sistema igrejeiro repleto de dogmas. Vícios que não enxergam a doutrina como um movimento cultural e de conquistas íntimas.

A pauta da transformação está além da doutrina que você segue. Crer ou não em uma força superior não absolve você de suas atitudes. A salvação não existe como é pregada aos desavisados. O que existe é uma caminhada muito difícil do Ser, altos e baixos, em que a bondade e o amor à natureza e aos outros seres devem ser a pedra angular de cada um. Se tudo isso vem com a crença de múltiplas vidas, ou em uma, é indiferente. O importante sempre é o que você faz com o momento presente.

Muito se estuda e se fala sobre o processo civilizatório, Manu; mas grande parte dos adeptos da doutrina ignora esses conceitos presentes no Espiritismo: distribuir riquezas, garantir aos não privilegiados saúde, educação e dignidade humana como direito, não somente caridade. No Brasil de hoje, a marcha da insensatez por parcela da sociedade, contra tudo que esteja inserido na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 1948, é contrário ao preceitos iluministas abraçados pela doutrina. Ou você é espírita ou dissemina a agenda da intolerância. As duas coisas não são possíveis. E nesses anos encontrei espíritas que apoiavam o porte livre de armas, a pena de morte, a diminuição da idade penal, o aumento do encarceramento, o fim de ajuda do estado para pessoas sem as mínimas condições de subsistência; além de muitos, muitos!, espíritas homofóbicos e reacionários.

Mas os espíritas não são a doutrina em si. Como nenhuma escola de pensamento, seja religiosa ou não, é representada pelos seus seguidores. Ver você levar essas convicções para terras distantes, a se atualizar em uma palestra, me reforça a convicção do que você se tornou. Do que nos tornamos.

Aqui no Brasil, também surge com força um movimento capitaneado pela Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (SP), chamado Espiritismo Progressista, que recentemente lançou um contundente manifesto, “por um espiritismo kardecista livre”. Ele está a se fortalecer para fazer frente a institucionalidade excessiva que adentrou nas casas espíritas.

Entre vários pontos, diz o manifesto:

Entendemos que a ética espírita – que é a do amor universal, inspirada na ética de Jesus – deve orientar nossas ações individuais e coletivas, em prol da transformação social; portanto, devemos marcar posição contra a violência de qualquer espécie, trabalhando pela dignidade humana, pela justiça e combatendo o abuso e a sujeição de pessoas, de qualquer idade ou condição.

Manuela, reafirmo nesta carta que somente a religião e a crença em Deus não tornam as pessoas dóceis. Não definem você. O que vale mesmo são suas convicções íntimas, baseadas em várias escolas de pensamentos – científicas e filosóficas, com variados expoentes, muitos ateus, pesquisadores e também religiosos. Religiões são passageiras e falíveis. Definitivo mesmo são suas experiências de amor e tolerância.

Fique na Paz, minha amada, beijos a todos.

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