Contos 2020

Mãos decepadas

[CONTO] Sua afinidade pelos outros não é assim tão aceitável, mas procura ser uma pessoa gentil. Um esforço, com certeza.

Por Manoel Fernandes Neto

Talvez seja mesmo falta de empatia o seu desinteresse por todos ao redor, mesmo em um lugar que fala tanto em amor; mas ele não se importa com os problemas alheios. De ninguém. “Cada um com seus,” pensa, impiedoso.

Nem mesmo para a sua família ele oferece alguma trégua; pudera, deixou de conviver há muito tempo com todos. Sem pai nem mãe, desde muito jovem e, mesmo com aquela irmã mais velha da qual era bem próximo, hoje só a encontra em dias santos ou nem tanto. Já é alguma coisa: ela o abraça, diz que o ama de paixão, o chama de caçula, mas ele não liga, o coração não palpita. Não diz nada para ela, não pensa nada sobre ela, só em si. De maneira fraterna.

Sim, ele não pensa em mais ninguém fraternalmente a não ser em si mesmo. Conquistou tudo por seu único mérito. Não gosta dessas escolas que pretendem erguer a auto estima dos incompetentes, de espalhar uma positividade vencedora aos incautos ou desses conselhos new ages de que todos estão ligados a todos. Ele mesmo sabe que não está ligado a ninguém, que tudo foi graças ao seu próprio esforço. Labuta que o levou à vitória na sua profissão liberal e à sua solteirice convicta aos 45 anos.

Ele já sabe que não tem que ficar pensando em tudo isso na hora da palestra. Um dia teve até explicação na abertura “dos trabalhos”, antes de um tipo de oração; todos deveriam ter o foco no tema da “noite”. Não manter pensamentos paralelos. Ele tenta, mas é multitarefa, presta atenção no que está sendo explanado e fica refletindo a própria vida, suas miudezas e grandezas, e tudo que não é da conta de ninguém. O que ele faz ou não faz. O que ele é ou deixa de ser.

Dormir na palestra, ele nunca dormiu. Tem gente que ronca, “ronca!”; ele já viu. Constrangedor, não aparece viva alma para acordar, com perdão do trocadilho. Ele já ouviu que são as “mudanças vibracionais”, que a pessoa dorme porque é necessário, “sabe-se lá,” pensa. São tantas informações apresentadas que ele procura não ter pressa em aprender; o que às vezes acontece, outras não.

Tudo bem, ele confessa: alguns palestrantes ele “não assimila”, para usar um termo bem elegante. Aquela voz monocórdica, sem variações, sem atrativos. Amorfa. Ele acaba por se distrair. Com outros, ele é justo, “a grande maioria” o deixa bastante animado, bem crente mesmo com coisas que ele não sabia: que a cada final de existência “saímos da carne”, continuamos espíritos e voltamos a renascer. Outra: que responderemos aqui todo o mal e todo bem que fizermos. Nesse dia se arrepiou, pensou na sua falta a compaixão.

 

Ele não sabe de fato o que foi fazer ali. Há alguns meses, saiu caminhando depois de jantar em um dos seus restaurantes favoritos após alguns copos de cerveja artesanal e encontrou o lugar. Carros estacionados, pessoas entrando, um burburinho saudável. “Que gente legal,” pensou. Foi entrando e só lá dentro descobriu que era um centro espírita. Assistiu a exposição. Conversou com algumas pessoas. E até um livro escrito por um espírito, “vejam só”, levou pra ler.

Sim, ele não tem empatia ou sua afinidade pelos outros não é assim tão aceitável, mas procura ser uma pessoa gentil. Um esforço, com certeza. Desde que as pessoas não cheguem muito perto. Não peguem muita intimidade, digamos assim. Não gosta de intimidade, gosta de “ficar na dele”, como se diz.

Mesmo antes de encontrar o centro espírita, por absoluta coincidência, já pensava muito nessas coisas pós morte. De que adianta tudo que se faz, tudo que se constrói ou segue, bondade, maldade, lucro; tudo não faz a mínima diferença se os olhos fecham para sempre. Se o soluço final chega, com dor ou sem dor.

 

Certa vez, teve uma visão. Foi tão real, ele conta para quem quiser ouvir. Ele não sabe se entrou em transe ou não. Viu dezenas de pessoas girando em torno dele, como se o conduzissem em uma dança em que ele era o centro do Universo, mas ao mesmo tempo era o “próprio nada”, sem valor. Durou poucos segundos, mas foi infinita para ele manter na memória.

Cada vez que se recorda dessa visão, também lembra de um poema que o marcou muito: Sama, de uma poeta chamado Rumi, recebido nesses grupos de WhatsApp. Na época, não deu muito valor, mas hoje o poema não lhe sai da cabeça. A voz feminina recita: Como a pedra do moinho, em torno de Deus gira a roda do céu. Segura um raio dessa roda e terás a mão decepada. Girando e girando essa roda dissolve todo e qualquer apego. Não estivesse apaixonada, ela mesma gritaria – basta! Até quando há de seguir esse giro? Cada átomo gira desnorteado, mendigos circulam entre as mesas, cães rondam um pedaço de carne, o amante gira em torno do seu próprio coração.

Deus? Sempre achou uma abstração, uma forma de consolar aqueles que não conseguem por si só aceitar as agruras da vida. E mesmo ele, tão capacitado por escolas e teorias, sofria em muitos momentos, em agonia, para preencher esse vazio. Um livro, uma noitada, uma viagem, um breve amor. Tudo isso para ele era deus, tudo isso para ele era o acaso, tudo isso para ele era o abismo; tão doce, tão doce…

Empatia, amor ao próximo, carmas, mundos estranhos e encantados, a cada semana ouvia mil e uma histórias destinadas a consolar, a manter a chama da vida, a vontade de viver. Ele gostava. Interpretava como uma poção de um elixir desconhecido para fazer o ser caminhar sem desespero em um mundo desesperadamente caótico.

E, dessa forma, mesmo sem saber como, sempre está ali sentado; para receber reflexões, ensinamentos, palavras. E também ter as suas mãos decepadas.

Manoel Fernandes Neto é jornalista e escritor. Curador de conteúdo. Editor do portal Nova Era, e diretor de CMM Interativa. Acesse também www.manoelfernandesneto.com.br

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