Vida de Links #2 – Links, afetos e a vida que precisamos salvar

Manoel Fernandes Neto
Jornalista, editor e curador de conteúdo

Em uma coincidência, o Papa Leão XIV usou o termo “vida de links” — o mesmo nome desta newsletter — em uma manifestação para jovens da diocese de Roma, em encontro no Vaticano. Ele disse literalmente: “Uma vida de links sem relação ou de curtidas sem afeto nos decepciona, porque fomos feitos para a verdade: quando ela falta, sofremos. Fomos feitos para o bem, mas as máscaras do prazer descartável traem o nosso desejo.”

Compreendo o que ele quis dizer. Estamos diante de uma epidemia de olhares nas telas, aprisionados em algoritmos feitos para trazer algo parecido com compulsão, baseada em superficialidade e consumo, além do discurso de ódio. Uma ausência cada vez maior de relações humanas, em todas as idades. Mas principalmente em relação aos jovens e crianças, vítimas do que vem sendo apontado como vício, com grandes plataformas a enfrentar julgamento de que são coniventes com isso. Leia: Big tech enfrenta julgamento histórico nos EUA sobre vício – 09/02/2026 – Tec – Folha

Abandono

Para colaborar com o debate, devemos esclarecer, no entanto, que links e curtidas são coisas diferentes. A primeira surge a partir do hyperlink, medida para descentralizar, compartilhar e distribuir conhecimento; a segunda é um fenômeno das redes sociais, feito para gerar presença e capturar gostos pelos algoritmos.

Falando de outra forma: curtida é ato individual e impulso, sem relação profunda com o outro. Os links surgem da verdadeira internet, sonhada por pioneiros, mas que infelizmente não se concretizou. Os links nos levam a outros lugares, na busca incessante por saberes.

A propósito, os links foram abandonados ou têm distribuição restrita pelas Big Techs para que cada usuário fique o maior tempo possível na própria plataforma, sem explorar outros espaços.

Mesmo as ferramentas de busca, que enriqueceram por causa de links, estão restringindo cada vez mais os links espontâneos, nos deixando presos a receitas de bolo da IA, com muito pouca vontade de distribuir e descentralizar o acesso de cada um. Um site de conteúdo, SEO caprichado, perde cada vez mais relevância. Leia: Adeus às buscas na internet | Outras Palavras

No entanto, acima dessas definições, links, sim, podem ser também de afetos e verdades, a demonstrar, gentilmente, outros caminhos; ou mesmo, metaforicamente, como espaços, relações e gentes. Link é generosidade; curtida é vazio sem compromisso.

Links são histórias e rituais

Martin Weil foi despedido do Washington Post após 60 anos na editoria de cidades. 300 dos 800 jornalistas do centenário jornal foram mandados embora. O impacto foi grande na editoria local. O modelo regional do Post foi abandonado pelo plano de privilegiar o noticiário nacional. O subúrbio da cidade, nessa nova fase, não terá mais cobertura. O noticiário das ruas, que incluía lojas locais, concessionárias e pequenos negócios, que também pagavam anúncios, deixou de ser publicado.

A editoria local reunia 200 repórteres; era uma “infantaria” em qualquer cobertura especial, como na Invasão do Capitólio. Hoje ficaram menos de 20 profissionais. Deixam de entrar no jornal notícias locais: pequenos roubos, incêndios e outras notícias, como oportunidades de emprego e perfis.

Weil usava uma lista telefônica para checagem. Além de todas as suas funções, fazia uma resenha voluntária sobre o clima: divagações literárias sobre neve, nuvens no céu; possuía grande base de leitores cativos. Durante décadas cumpria um ritual: circular pela redação, com cumprimentos e conversas fiadas. O Washington Post sem Martin Weil está mais vazio.

Pessoas são links

Nick Paumgarten sai todos os dias da redação da revista New Yorker e anda pelas ruas da cidade de Nova Iorque em busca de histórias. A coluna The Talk of The Town é uma das mais lidas da revista semanal. Na verdade, são pequenos blocos em que cada um conta uma história.

Ele pode caminhar com uma banda de rock ou algum profissional pelas ruas. Nick não busca notícias, mas pessoas: conversa com proprietários de comércio, trabalhadores, gente que caminha pelas ruas; procura “links humanos” para sua coluna na revista mais comentada da história do jornalismo.

A New Yorker completou 100 anos em 2025. Ele diz em documentário recente na Netflix: “É tipo sair para pescar, nunca se sabe; você sai perambulando e vê o que está na boca do povo. Quando eu entro no modo de procurar pessoas interessantes é quase como estar drogado, ou sei lá; todos me parecem interessantes, isso é impressionante.”

O link paixão

Publiquei em 2020 no meu blog a história do Carl Butz. Repercuti uma matéria publicada no UOL, reproduzindo o original do The New York Times. Butz, na época com 72 anos, viúvo, jornalista aposentado, comprou o centenário jornal The Mountain Messenger quando soube que o semanário iria fechar as portas, como tantos jornais impressos nos Estados Unidos. O jornal é o mais antigo da cidade de Downieville e do Estado da Califórnia, fundado em 1853. A fama do jornal também vem do fato de o escritor Mark Twain ter assinado uma coluna para o jornal usando seu nome verdadeiro, Sam Clemens.

Carl Butz arregaçou as mangas e decidiu que não era justo o fechamento de um jornal com tanta história. No dia seguinte da compra, levantou cedo e “foi encher” as páginas do jornal de pautas, textos, crônicas e poesias. Com o melhor que ele tinha conseguido em experiência nesses anos todos. Ele falou sobre a importância de salvarmos esses patrimônios. Mas confessou: “É o jornal que está me salvando.”

A Internet que precisa ser salva

Hossein Derakhshan é um jornalista e blogueiro iraniano-canadense. É considerado um dos pioneiros dos blogs no planeta. Em 2008 foi preso pelo regime iraniano. Ficou seis anos encarcerado, a maior parte em isolamento. Ao ser libertado, em 2014, ele deu entrevistas a diversos veículos internacionais. Disse que quando entrou na prisão, a internet era feita de links. Quando saiu era feita de redes sociais. Ele se referia a plataformas fechadas, sem a liberdade de “Ir e vir” por um universo de hiperlinks. Hoje o que vale é segurar o usuário, prender?, em um feed infinito, com conteúdos superficiais ou propaganda, baseado em algoritmos que estudos já apontam como prejudiciais.

Derakhshan diz:

“Decorrente da ideia do hipertexto, o hiperlink dava uma diversidade e uma descentralização que o mundo real não tinha. O hiperlink representava o espírito aberto e interconectado da rede mundial de computadores — uma visão que começou com seu inventor, Tim Berners-Lee. O hiperlink foi uma maneira de abandonar a centralização — todos os vínculos, linhas e hierarquias — e substituir isso por algo mais distribuído, um sistema de nós e redes. Essa é a internet da qual me lembro antes da prisão. Essa é a internet que temos de salvar.”

Vida de links é….

Para a artista plástica Marion Rupp, uma vida de links é…

“Caminhar na natureza sem pressa, parar para pensar e ouvir, também ouvir as palestras de Ana Primavesi, Ailton Krenak, Sidarta Ribeiro entre tantas pessoas fantásticas que também existem. Primeira vez que eu tive consciência do que é viver e o quanto a vida não precisa ser o que me apresentaram desde pequena.”

Dica de escrita

Em um tempo de textos gerados em abundância, uma citação do livro “Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los”, de Francine Prose, editora Zahar.

“Um parágrafo de uma frase é como um soco, e ninguém gosta de ser socado. Usado em excesso, pode ser um tique irritante, a tentativa de um escritor preguiçoso de nos forçar a prestar atenção ou de injetar energia e vida em uma narrativa, ou de inflar falsamente a importância de frases que nossos olhos poderiam saltar inteiramente se estivessem colocadas, mais discreta e modestamente, dentro de um parágrafo mais longo.”

Por hoje é isso. Avise seus amigos da Newsletter Vida de Links. Muito em breve estou de volta.

Manoel Fernandes Neto é jornalista, escritor e curador de conteúdo (manoelfernandesneto.com.br ). É colaborador do projeto experimental vidadelinks.com.br e cmm.art.br

 

Links da edição #2 da Vida de Links

Papa aos jovens: “Uma vida de curtidas sem afeto nos decepciona” – Vatican News

Big tech enfrenta julgamento histórico nos EUA sobre vício – 09/02/2026 – Tec – Folha

Adeus às buscas na internet | Outras Palavras

Post: Repórter há mais de 60 anos no jornal é demitido – 06/02/2026 – Economia – Folha

Manoel Fernandes Neto – Jornalista, escritor e curador de conteúdo

Cartas à Manu: lembre sempre do The Mountain Messenger – Manoel Fernandes Neto

Ao salvar um jornal da Califórnia, um viúvo salva a si mesmo – 11/02/2020 – Mercado – Folha

A internet que temos de salvar – 21/09/2015 – Tec – Folha de S.Paulo

The New Yorker: 100 Anos de História – Netflix

Entrevista Marion Rupp, pesquisadora em tingimento natural e criadora da Rion  – Uma revista CMM Interativa

Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los: Prose, Francine: Amazon.com.br: Livros

 

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