Crônicas

Respeitável público. O maior espetáculo da terra.

Por Manoel Fernandes Neto.

O homem aranha era o vendedor de algodão doce. O herói não se intimidou em sua apresentação em duas esferas de metal sustentadas por uma gangorra giratória. Pulou, girou 360 graus, mesmo sem a teia; brilhou, com certeza. Mas era o homem do algodão doce. A Rafaela ficou em dúvida. Gostou mesmo do King-Kong, espetacular com seus 6 metros de plástico e resina moldados em pelo e a boca cheia de dentes, quase humano. Tão falsamente encantador.

Mas tenho que falar das pombas amestradas em seu balé angelical sobre braços, cabeça e dorso da moça; ou mesmo da mágica da caixa sincronizada em que a mesma jovem desaparecia por entre vários canos e cubos introduzidos na caixa. Ela sumiu e depois ressurgiu; aplausos para um velho truque que ainda tomava os nossos corações, mesmo ninguém compreendendo.

O engolidor de fogo parecia sem medo, a considerar o número tão assustador e indigesto. Mas ele também estava no trapézio, em uma apresentação originalmente antiga, mas temi por sua segurança no cansaço da idade, em movimentos tão vacilantes e ofegantes; acho que não fui só eu que percebi, pois todos prendiam a respiração a cada pesada pirueta.

E teve os palhaços: o da cozinha, o atirador de facas e ainda o que pegava o arremesso de moedas imaginárias das crianças, até o tilintar delas no balde. Tinham poucas crianças, mas tão crianças que eram o suficiente naquela noite chuvosa. E nós, adultos, também crianças, nos deleitamos com o contorcionista. Um longo cabo de aço envolto em um pano laranja o erguia e ele girava em círculos. Sobre a multidão, abria os braços e o pano transformava-se em asas, surpreendendo a todos.

Nós, tão crianças, a vibrar com o globo da morte que espalhava vida a toda velocidade, mesmo quando se dividia em duas metades. Mesmo quando nos dizia no ronco da motocicleta que todos os dias são um bom dia para viver.

E o homem aranha ficou para as fotos no picadeiro. 10. Bem barato, diziam. Pouca gente quis, pois não era o mesmo herói das grandes esferas, por debaixo da máscara e roupas vermelhas. Um dublê, talvez. Sim; um dublê de fotos. Não era o verdadeiro homem aranha, que era o palhaço da moeda imaginária do balde, o palhaço cozinheiro, o contorcionista de asas abertas. Não era o mesmo vendedor de algodão doce que, sorridente, ofereceu seu produto a nos dizer que o espetáculo sempre começa e que seriamos sempre o respeitável público.

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