Newsletter #1: História, tecnologia e cultura oral

“A história da Internet será esquecida”. Acordei com essa frase na cabeça quando imaginei a Newsletter “Vida de Links”. Parecia um paradoxo pensar nessa hipótese em um mundo repleto de dispositivos, possibilidades práticas, com tantos eventos que ocorrem a cada segundo em recortes da realidade. Todo mundo é especialista em algo, mas ninguém lembra como tudo começou.

Pensei também no resgate da “Vida de Links” de profissionais de vários segmentos: pesquisadores, realizadores, amigos próximos e distantes. Clientes, parceiros, acadêmicos, empreendedores, pioneiros e pensadores que contribuíram para o que vivemos hoje e também com quem mantive vivências e sonhos.

Em 1995, já vivíamos uma internet a criar algo que hoje se normalizou chamar de conteúdo. “Naquela época…” — admirável clichê — tudo era plena descoberta. Tudo era novidade, tudo era inédito, o mundo estava ali inteiro para “ser transformado”, a propalada “democratização do conhecimento”. Uma cena recorrente: alguma fila se formava em uma mesa em um grupo empresarial. Funcionários esperavam sua vez para entregar arquivos digitais a serem enviados por e-mail, na única conexão existente. Primórdios dos primórdios da web. Alguém ainda sabe para onde foram essas lembranças?

A força da cultura oral

“Vida de Links” não é passado. O “passado passou”, diz minha filha de 31 anos; sim, sou um jovem senhor com um “Marlon Brando” nas ideias, como cantava Zé Rodrix; alguém que pretende, nesta newsletter, falar sobre até que ponto empresas e negócios são impactados por sistemas e invenções sem perdermos a identidade para o imediatismo.

O imediato suga tudo à nossa volta como um vórtice. O hoje é fugaz, o amanhã também, até o ontem é célere. A máquina simula, aconselha, escreve, inventa, nos enrola, fala lorota, esbanja travessões, nos adula, mas ainda estamos vivos. Sim, estou vivo, repito todos os dias, mas fico na dúvida. O “agora” toma conta de tudo e de todos como se não existisse mais nada.

Sistemas salvam vidas, facilitam processos, criam alternativas de cura. Mas vivemos como se nascêssemos todos os dias: tábula rasa; com rapidez e acesso instantâneo a respostas fáceis. Uma busca em qualquer ferramenta e você recebe um resumo sobre o que fazer, “assim e assado”, algo que a gente chamava de “receita de bolo”. E, de receita em receita, continuamos com a cabeça enfiada na tela, como avestruzes artificiais, no infinito de hoje.

Penso na chamada cultura oral, tão esquecida. Cadência! Sabedoria passada de pessoa a pessoa; avós e pais para os filhos, antigos para os jovens, mestres para os discípulos, povos para povos. Mitos, valores, memórias, caminhos, jornadas — tudo com humanidade. Com certeza essa força importa e deve ser revisitada.

Troca de energias

Esta newsletter não vai trazer novidades. Estamos abastecidos de novidades. A cada lugar que você olha, há novidades. Quero pensar sobre impactos singelos, filosofadas desafiadoras e sobre aquilo que ainda pouco foi dito, nas nuvens ou escrito nas paredes. Não, não será uma newsletter engraçada, mas pode ocorrer algum sorriso; na maioria dos dias não suporto “lacrações”. Não espero somente curtidas, mas uma leitura franca. Talvez um comentário ali e outro acolá, visceral, de humano para humano, ok? Isso é vida. Isso são links.

Também vou trazer reflexões, antigas e recentes, e me esforçar para rememorar, porque a cabeça já não é a mesma. Vou repercutir assuntos do mercado, de tecnologia, de internet, de comunicação e mídia: unindo futuro e história. Trazer visões imprevisíveis. Também algumas coisas que só eu poderia trazer, porque são pessoais.

Tive um amigo muito fraterno que partiu para o infinito, o jornalista Paulo Bicarato. Em 2003, esteve muito perto, na hora em que eu mais precisei: em uma enfermidade. Levava-me ao banheiro, fazia algumas leituras, contava histórias inesquecíveis e dizia: “tudo vai dar certo”. Em um de seus textos, de 2002, escreveu: “Trocar energias e informações é se relacionar. O homem precisa dessa troca contínua, ou então simplesmente acabará explodindo por acumular tanta energia. Daí que temos a necessidade do relacionamento interpessoal como premissa para nossa própria sobrevivência.”

Avise seus colegas: a Newsletter “Vida de Links” será um apanhado de caos; coisa curta, para seu dia atribulado ou para a hora do café. Às vezes você lerá em uma caminhada até o outro bloco ou sala da empresa em que trabalha, ou na mesa, pelo canto dos olhos.

Será mensal, mas posso me atrasar, ou mesmo chegar antes. Mas garanto: será feita com amor.

Acompanhe essa newsletter, avise seus amigos.

Manoel Fernandes Neto é jornalista, escritor e curador de conteúdo (manoelfernandesneto.com.br ). É colaborador do projeto experimental vidadelinks.com.br e cmm.art.br

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