Por Manoel Fernandes Neto
Foto divulgação/Vitrine Filmes
Falar do filme O Agente Secreto não é somente falar do talento indiscutível do ator Wagner Moura e do diretor Kleber Mendonça Filho; é mostrar mais uma vez o que é a arte, seja no cinema ou na literatura. A arte surpreende, nos toma de assalto, nos traz o desassombro, nos move e desperta em nós uma identidade única que nos anima, ergue nossa autoestima. Ao sair da sala de exibição, temos mais uma vez a sensação de que a “sétima arte” do Brasil é a frente cultural e artística que nos apresenta ao mundo.
O Agente Secreto é um filme para ser apreciado com atenção. Cada cena ou sequência — embalada por uma trilha sonora visceral — é um resgate do mais autêntico cinema, com seus símbolos, personagens, roteiro, direção e produção. É um filme sobre potências — não óbvias, mas presentes. Desde a primeira tomada, percebemos que existe algo a ser revelado, uma força descomunal que passa a mensagem de que você está completamente dominado, seja por um tempo de arbítrio, seja pelas profundezas de um Brasil repleto de especificidades, autenticidades e amor à vida.
Pedra angular dessa força é o elenco, formado por atores experientes do cinema e da televisão e outros atores da chamada cena cultural local, Recife, Pernambuco, onde se passa o filme. Essa harmonia traz realismo à atuação, força e beleza incomuns. Algo como uma explosão de sentidos, que nos impacta como reconhecimento de que somos assim: um misto de alegria e orgulho da própria existência.
Outra experiência imersiva de O Agente Secreto é a reconstituição irretocável de uma época: os anos 1970. Emociona a todos, mesmo aos mais jovens; desperta nos que viveram essa época algo muito especial, ao reconhecer ícones de um tempo que amamos e odiamos ao mesmo tempo. Ali, entre outros, encontramos o filme de terror retratado, A Profecia (1976); crianças como nós, a desenhar com lápis de cor e entregar para nossos pais; a marca CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo, antiga empresa de telefonia) em alguns orelhões. Aliás, o filme retrata com coerência como era feita a comunicação na época, com muitas cenas de ligações com fichas, ou mesmo o envio de um telegrama — a mostrar que existia vida além dos ecrãs.
O guarda da esquina
As referências são muitas para o deleite do público. Conversei sobre isso com minha companheira e a filha de 17 anos, logo após a sessão lotada. Estão ali todos os elementos de um tempo caótico e também surpreendente. A ditadura também — sim, muito presente — é mostrada através de sua face mais cruel, definida por Pedro Aleixo, antigo jurista e político brasileiro: o que faz o guarda da esquina diante do arbítrio instalado?
Traz também o perfil de um empresário, como outros, que se envolveu diretamente com a repressão e calava as universidades e seus pesquisadores, impondo seus interesses menores — tudo eivado de muito preconceito, racismo e misoginia. Essas interpretações, muito longe de serem caricatas, retratam com fidelidade no que se transformam pessoas e agentes de Estado embutidos de força repressora.
Na sua entrevista logo após ganhar o Globo de Ouro por O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho disse que os cineastas devem falar de seu próprio país, para dialogar com o mundo. Na voz de Kleber:
“Jovens cineastas brasileiros e brasileiras, façam histórias sobre o Brasil no cinema; pode usar o telefone, pode colocar um projeto e desenvolver sua própria história, contar a história do nosso país, porque a gente falando da nossa casa todo mundo ouve ao redor do mundo.”
E o filme é isso: o Brasil que muita gente quer interditar com atitudes e falsas definições, ao valorizar somente a forma de fazer cinema, e arte, de outros países — não só o estadunidense, mas também o europeu, ambos que sempre falam sobre si mesmos.
Em O Agente Secreto, o espírito Brasil ocorre no encadeamento da narrativa — pode ser o Carnaval, pode ser a ingenuidade de uma criança, a espontaneidade dos idosos, a energia de uma juventude que pendula entre a compreensão e a participação. Tudo isso contagiado pelo bom humor típico do brasileiro.
O filme é a essência brasileira que será percebida por quem tem sensibilidade e olhos de ver o melhor de cada um de nós.
Manoel Fernandes Neto é pioneiro na Internet; jornalista, escritor e curador de conteúdo (manoelfernandesneto.com.br). É colaborador do projeto experimental vidadelinks.com.br